Já lá vamos. Agora, um pouco do meu percurso até ao dia de ontem.
Em Outubro do ano passado, fruto do demasiado tempo sem qualquer actividade física de relevo, cheguei ao terrível peso de 91kg, que, considerando a minha altura e a minha idade, é assustador, por um lado e embaraçoso, por outro. Nunca antes havia atingido tal peso, sobretudo devido ao facto de ter passado o meu fim de infância, adolescência e idade adulta jovem a praticar desporto a um ritmo assinalável. Primeiro na ginástica acrobática e desportiva, apimentada por natação e, mais tarde, com a prática de judo.
Acontece que, com a faculdade e início da vida profissional, aliada também, admito, a uma certa desmotivação desportiva, fez com que nada nesse campo tivesse ocorrido de importante e consistente. Entretanto, volvidos alguns anos e já algum peso a mais, ressurgiu a vontade. Alguns familiares pratica(va)m corfebol e lá me inscrevi no clube. Após alguns treinos onde já começava a apreciar a dinâmica da modalidade, lesionei-me gravemente, tendo sofrido uma rotura total do tendão de aquiles esquerdo. Seguiram-se seis meses de calvário e engorda até retomar a minha vida habitual. Foi então que, dois anos mais tarde, e já com a mente restabelecida e confiante, decidi que tinha que fazer algo para inverter o estado de coisas. Estávamos em Outubro de 2010.
Comecei no passeio marítimo de Oeiras com discretas corridas lentas de 1-2km e longas caminhadas e, paulatinamente, o meu entusiasmo aumentou proporcionalmente às distâncias de corrida contínua que fui conseguindo realizar. No Inverno treinei pouco (ainda não estava totalmente vidrado) mas em Março deste ano voltei à carga e pode então considerar-se este o mês zero desta aventura.
Passei a treinar consistentemente e fui realizando o percurso usual dos neófitos. 5km de seguida, uma ida e volta ao passeio marítimo (+-7km), 10km de seguida (quando o RunKeeper o anunciou ao ouvido, esbracejei como se tivesse ganho alguma coisa), e, finalmente, em Junho decidi que já me poderia inscrever em provas. Inicialmente, o meu objectivo passava unicamente por perder peso, mas, com o passar do tempo, o entusiasmo levou-me a participar em corridas populares, sobretudo de maneira a manter alta a motivação para o treino (meses mais tarde percebi que a superação dos nossos objectivos é a grande fonte de motivação). De 91 passei para os 79kg, estando, actualmente, a estabilizar nos 78-78,5kg. Ainda não está perfeito mas aproxima-se, pouco a pouco, do ideal.
A primeira prova onde me inscrevi foi a Marginal à Noite que corri nuns dignos 42:44. Mas o que fica retido dessa experiência foi o ambiente vibrante das provas. Da electricidade que se sente nos momentos anteriores ao tiro de partida. E, quando se cruza a meta, o boost do ego. Acreditar que se consegue mais. A partir daí, os treinos, as provas, e o cuidado com a alimentação passaram definitivamente a fazer parte integral da minha vida. E ocupam, com grande prazer e satisfação, uma fatia considerável do meu tempo. Há muitos anos que não sentia tanto entusiasmo pelo desporto. O desafio é imenso e leva-nos onde quisermos e conseguirmos. Especialmente, aprendi nestes meses, até onde quisermos.
No Verão, surgiu a ideia da meia maratona. Na altura, um amigo, já inscrito na da Vasco da Gama, instigou a minha inscrição mas julguei ser cedo. Em boa hora o fiz. Ainda andava a batalhar com os 10km e a ideia de percorrer 21km sem paragens assustava-me. Preferi concentrar-me na melhoria dos tempos aos 10km e, seguidamente, pensar em tal distância. Da corrida do Destak, em Setembro, à da Ajuda, a meio de Novembro, passei de 56:27 para 49:43 mas o mais importante foi ter percebido que dominava o meu corpo, fisica e mentalmente, crendo que poderia ir mais longe, suportando o stress. A corrida do Destak foi um ponto chave neste percurso. A minha forma física aumentava, mês após mês. Assim sendo, procurei uma meia maratona no calendário em 2-3 meses.
Dia 4 de Dezembro e a Meia Maratona de Lisboa soou bem, com um limite temporal adequado para me preparar adequadamente. Peguei num plano de treinos da Runner's World e passei a obedecer, com algumas (poucas) faltas, ao que as tabelas, entretanto impressas, me mandavam fazer.
Resumidamente:
Total: 339,5km.
Muitas horas, algumas delas ao frio e à chuva, ou com muito cansaço acumulado ao longo do dia. Mas, à medida que a data se aproximava e as distâncias dos treinos longos subiam, aumentava a crença de que seria capaz.
Face à prova, defini dois objectivos. O primeiro seria, obviamente, terminar. Sem paragens, sem exageros ou
distress insuportável. E sem sentir que o mundo acabaria dois segundos depois de cruzar a meta. O segundo, menos importante, seria terminar em menos de duas horas. Considerando os tempos que havia realizado nos treinos longos, não me parecia de todo impossível, mas teria que gerir muito bem a corrida. Como descrito
aqui, a estratégia passava por correr os dois terços iniciais da corrida a 5:30-5:40min/km, deixando alguma folga para que, iniciada a temível Almirante Reis, eventualmente fosse obrigado a diminuir o ritmo para os 6:00min/km.
O dia começou bem. Apesar do céu nublado, a temperatura estava óptima para correr e, aparentemente, os atletas não teriam que enfrentar qualquer vento adverso. Um pouco antes das 9h estava a estacionar o bólide na Avenida da Igreja e ainda fui a tempo de aplaudir e incentivar os maratonistas que saíam das imediações do estádio 1º de Maio. Dirigi-me para o metro, e entre saltitar de átrios na estação da Avenida de Roma, por avaria das máquinas dos bilhetes, lá cheguei ao Cais do Sodré. Trote ligeiro até à zona de partida no cruzamento da 24 de Julho com a Av. D. Carlos I e algum tempo depois, durante o aquecimento, passaram, velozes, os primeiros atletas da maratona (os últimos 21km da maratona eram sobreponíveis ao percurso da meia). Admirável a velocidade desta malta durante 42km. Entre troca de impressões com companheiros de corrida, alguns igualmente estreantes, soou a partida e lá fomos nós.
Nos primeiros 4 km fui bastante contido, com algum receio de me entusiasmar e estoirar demasiado cedo. Colei-me a um grupo de atletas do CCD SRS de Lisboa que corriam no ritmo que eu pretendia e assim seguimos. Ia perfeitamente controlado a 5:40min/km. Por volta do 5ºkm o impensável aconteceu. Já durante alguns treinos longos, a dada altura (normalmente a partir do km 13 ou 14), me havia afligido uma dor na coxa direita, insidiosa, de instalação lenta e que, com o passar do tempo, me condicionava o movimento. Fiquei bastante apreensivo e, até ao km 11, em nada mais pensei a não ser no descalabro que seria se tivesse que interromper a prova. Pelos 8 km, já bastante aflito e a lutar para ignorar a dor, ingeri o primeiro gel e alguma água, o que me confortou um pouco. Ao passar no km 10, em 56:42 (foi o único split que memorizei), depois de Belém, deixando a volta em Pedrouços para trás, das duas uma. Ou me esforcei imenso por ignorar a dor e ela continuava lá, mas adormecida ou, de facto, desapareceu mesmo.
A partir do km 11, chegado a Alcântara, tinha a certeza que nada me impediria de acabar a meia, a não ser um contratempo externo. Depois de 6km num sofrimento físico e psicológico intenso, consegui finalmente focar-me no prazer da corrida e, também, aperceber-me do que me rodeava. Afinal de contas, estava a correr a minha primeira meia maratona e seria uma estupidez não fruir do momento a 100%. Felizmente que a animação do público aumentou substancialmente na zona do Cais do Sodré e seguintes. Uma maratona no meio de Lisboa merece mais, sinceramente. Estou ao corrente das restrições orçamentais da organização e do número limitado de atletas, apesar de, a julgar pelo que tenho lido, ter sido uma edição bastante concorrida (pelo menos comparando com edições transactas). De qualquer forma, a mais antiga maratona do país tem um potencial de crescimento enorme e será uma pena não o aproveitar.
Chegados à Praça do Comércio (km 15), comecei a mentalizar-me para o que aí vinha. Um par de km antes tinha ingerido o outro gel e sentia-me com força. Ainda levei uns cubos de marmelada mas acabaram por ficar nas embalagens respectivas. Não valia a pena. A perna direita lá ia trabalhando sem lamentações. Foi sinceramente espectacular passar na Rua da Prata em direcção à Praça da Figueira, sabendo que estava a percorrer a baixa de Lisboa num dia tão importante para mim. Superado mais 1 km, no Martim Moniz, tive que me concentrar novamente e esquecer a envolvência. Iniciava-se a parte mais complicada do percurso. Tinha a noção de que ainda antes de acabar a Almirante Reis, entraria em território desconhecido, dado que a distância máxima que alguma vez havia corrido de seguida se cifrava nos 17 km. Tinha sido bastante regular no ritmo até esta parte e esperava, mesmo que mais lento, manter essa consistência. Devo confessar que os dois ou três loops que realizei nesta zona durante os treinos, me ajudaram bastante a manter a calma e a confiança durante esta parte. É realmente vital conhecer o percurso das provas e os pontos mais tricky. É certo que o ritmo caiu um pouco entre o km 16 e o 19 (Areeiro), passando para algo entre os 5:45 e os 6:06min/km mas fui tranquilo e obedecendo aos sinais que o corpo me enviava. Ao passar no Areeiro em direcção à João XXI, invadiu-me uma sensação de enorme felicidade, sabendo que seria uma questão de tempo e mais alguma paciência até estar cumprido o grande objectivo, isto é, terminar bem.
O último km demora uma eternidade. Sabia que nos esperaria uma pequena descida entre a Av. Estados Unidos da América e a Rio de Janeiro e que, olhando para o relógio, talvez desse para cumprir o segundo objectivo, ou seja, terminar em menos de duas horas. Junto à estação de metro da Avenida de Roma, ouvi palavras de incentivo (também me apropriei delas por uns momentos) do companheiro de um atleta da maratona, e retive uma frase inolvidável - já cheira a meta. Tentarei lembrar-me na próxima prova de longa distância. Com isto em mente, lá acelerei o máximo que consegui nesta fase, sabendo que teria pouco tempo para acabar em menos de duas horas. Pouco depois da curva e da entrada na Avenida Rio de Janeiro tive o maior prémio do dia, com os acenos da minha mulher e filho que, mais uma vez, me foram apoiar na chegada. Obrigado, não sabem o quanto significou!
À entrada do estádio, olhando para o relógio em pânico, sabia que tinha pouco menos de 1:00 ou algo assim (sinceramente, nem me lembro bem) para as duas horas e, na meia lua de pista que percorremos no final, dei o máximo que tinha. Lá passei o pórtico com 1:59:53. Nem queria acreditar. A marca é perfeitamente banal e relatada a alguém sem contextualizar o percurso, não só da prova mas, igualmente, da minha vida nos últimos anos, parece algo meio insignificante mas que me enche de um grande orgulho.
E quanto ao que se segue? Para já, uns dias de recuperação com a ajuda do
Hal Higdon. Amanhã uma massagem nas pernas, sobretudo na direita, que, como devem calcular, se apresenta bastante massacrada. Logo após o terminus da meia, já em casa, submeti-me aos rigores de um
ice bath. Soube-me bastante bem.
Os próximos capítulos serão guiados por um plano de treino para os 20 km de Cascais, algures em Março.
Este, portanto. Estava com vontade de participar nos 17 km Fim da Europa mas
parece que a edição de 2012 foi cancelada.
Vemo-nos, portanto, nas três São Silvestre do final do ano.
Apareçam!